Carlos Vagetti

6 dicas para transformar uma memória boa em uma supermemória

30 de abril de 2019 rascunho

(Este texto é a terceira parte de uma série sobre memória.)

Você já sabe como combater os ladrões de memória e como lembrar mais coisas usando uma máquina de esquecer. Agora é a hora de transformar uma memória boa em uma supermemória.

Com poucas ações, você pode multiplicar a capacidade da sua memória. Elas são simples, mas têm um ingrediente fundamental pra funcionar: consistência.

1. Intercale o aprendizado

A dica é do psicólogo Doug Rohrer, pesquisador dos efeitos da intercalação nos estudos. Não faça loooongas sessões de estudo de uma só matéria. Quando você faz isso, você basicamente está cometendo dois erros:

  1. você está se sujeitando ao excesso de aprendizado (overlearning), que é quando você já dominou um conceito e segue praticando sem aprender mais nada;
  2. você está privando o seu cérebro de metade do seu potencial, que está no uso do modo difuso — o modo no qual o nosso cérebro opera quando está distraído, exercendo uma tarefa que exige pouca concentração. No modo difuso, nossos pensamentos fazem caminhos aleatórios, e por isso esse modo de pensar está muito associado à criatividade e à descoberta de novas soluções para problemas.

Quando você intercala os estudos de vários temas, você dá a oportunidade de o seu cérebro usar o modo difuso pra achar formas melhores de lembrar e entender as informações.

2. Saia pra passear

Quando chegar a hora de dar um tempo nos estudos, não se jogue no sofá em frente à televisão. Sair pra uma caminhada, além de ser excelente pra saúde do seu cérebro, ainda ajuda a colocar o cérebro no modo difuso e aumenta a circulação do sangue. Isso ajuda muito na construção dos chunks, os famosos blocos de informação.

Além disso, relembrar a matéria fora do seu ambiente de estudos ajuda a sua compreensão, pois oferece uma perspectiva diferente, dissociada do lugar onde você estuda (Oakley, 2014). E, se você estuda num ambiente diferente do que você vai fazer uma prova, isso é muito importante.

3. Faça resumos manuscritos

Os resumos são uma excelente forma de você “se obrigar” a lembrar a matéria nas suas próprias palavras. Isso significa que você está testando se as informações já estão na sua memória. E por que manuscritos? Porque você estará usando a sua memória motora, ou seja, associando um determinado padrão de movimentos àquelas informações.

4. Revise a matéria periodicamente

Não adianta estudar a matéria só uma vez, em só um dia. Aprendizado é um esporte de contato, e quanto mais contato você tiver com as informações mais você vai fortalecer os caminhos neurais associados a elas. Uma excelente forma de revisar a matéria é fazer flash cards: cartõezinhos em que você escreve uma pergunta de um lado e a resposta de outro. Na hora de revisar, você lê a pergunta, tenta responder “de cabeça”, e depois verifica se acertou. Eu uso um app chamado Anki, com um algoritmo muito bom, que te mostra a pergunta quando você está prestes a esquecer.

5. Faça revisões focadas em relembrar, não em reler

Em vez de simplesmente reler os textos e resumos, é muito mais eficiente tentar lembrar “de cabeça” o que você sabe sobre a matéria. É pra isso que servem os flash cards: eles simulam exatamente o que você vai encontrar na prova, uma pergunta cuja resposta você vai ter de lembrar sozinho.

6. Dê uma aula

Imagine uma técnica de aprendizado que reúna resumos, repetição espaçada, relembrar e uma boa dose de frio na barriga. Aulas são a ferramenta mais poderosa pra aprender. Só quando você consegue dar uma aula sobre determinado assunto (e fazer um leigo entender a aula) você pode considerar que realmente aprendeu. Como disse o físico ganhador do Prêmio Nobel Richard Feynman, “se você não consegue explicar pra uma criança de cinco anos, você não entendeu direito”.

A memória que você merece

A memória humana é tão poderosa que às vezes parece até infinita. Mesmo o computador mais poderoso já criado ainda não tem a mesma capacidade de armazenar informações do cérebro humano.

Infelizmente, cada um tem a memória que merece: ao mesmo tempo em que nós descobrimos todos os dias coisas cada vez mais fascinantes sobre o nosso cérebro, nós estamos cada vez mais “terceirizando” nossa memória pros computadores e “atrofiando” o nosso cérebro por pura falta de uso. Isso tem até um nome, nada bonito: demência digital.

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