De onde não se espera nada, não sai nada mesmo
08 de setembro de 2023 rascunho
Rascunho recuperado do Drive. O texto parece terminar antes da conclusão — confirmar no arquivo original.
Há pouco menos de 1 mês, a seleção espanhola venceu a Copa do Mundo feminina. Mas o lance mais lembrado não aconteceu com a bola rolando. Não foi o gol de Olga Carmona, que deu a vitória e o título à Espanha. Não foi o pênalti defendido por Mary Earps pra manter a Inglaterra viva no jogo até o fim. O lance mais comentado aconteceu depois do jogo, durante a cerimônia de premiação: o presidente da Federação Espanhola de Futebol deu um beijo na boca da jogadora Jenni Hermoso.
Toda a celebração ao futebol feminino dos 30 dias anteriores, com histórias lindas sendo escritas todos os dias, foi eclipsada por esse episódio. A repercussão foi péssima, e o que aconteceu depois foi ainda pior: o dirigente teria pedido a Hermoso para vir a público declarar que havia consentido com o beijo, o que foi negado pela jogadora. Na sequência, com a pressão popular por meio das redes sociais e da imprensa para que apresentasse a sua renúncia, veio a público afirmar que não sairia. Pois foi “saído” dias depois pela FIFA, que determinou a sua suspensão temporária enquanto se apurava se houve violação ao código de ética da entidade.
Mais um pouco de contexto: as jogadoras da seleção espanhola já estavam em atrito com a Federação havia muitos meses. Diversas das principais jogadoras espanholas haviam pedido, cerca de 1 ano antes, a demissão do treinador Jorge Vilda, e uma série de mudanças na gestão da seleção feminina, o que foi negado pela Federação, fazendo com que algumas das melhores jogadoras do mundo ficassem de fora da Copa, como Sandra Paños, Mapi León e Patri Guijarro.
Dado todo esse contexto, vou analisar o que, na minha opinião, gera as condições pra que episódios como esse aconteçam. Em especial, a ideia é conscientizar o leitor sobre uma velha máxima: de onde não se espera nada, geralmente não sai nada mesmo. Isso porque, em especial depois da eliminação precoce da seleção feminina brasileira, houve um clamor por parte da opinião pública (imprensa e influenciadores de redes sociais) para que fosse criado ou intensificado um “Plano Nacional de Desenvolvimento” do futebol feminino, e a Espanha foi um dos países usados como exemplo.
Alguns mitos foram criados, como o do papel da federação nacional no fomento à atividade, e a importância das seleções nacionais no crescimento do futebol feminino. Pra entender melhor por que são mitos, recomendo a leitura do meu texto sobre a anatomia do sistema esportivo; em síntese, o sistema esportivo exerce um papel de parasita do esporte e, ao contrário do que os mitos defendem, destrói valor.
O caso do Brasil é emblemático: 10 entre 10 analistas concordam que a seleção brasileira evoluiu muito em termos de estrutura nos últimos 4 anos. A CBF contratou uma treinadora campeã olímpica e mundial, alguns dos melhores profissionais do Brasil foram contratados para exercer funções-chave dentro da comissão técnica e dos “gabinetes” da seleção (coordenação, supervisão e direção). Toda essa estrutura, porém, foi montada sob o comando do antigo presidente da CBF, que viria a ser afastado por denúncias de assédio moral e sexual contra uma empregada da entidade.
O novo presidente, por sua vez, prometeu cada vez mais apoio à modalidade, e chegou a declarar que, até o fim do seu mandato, todos os 104 clubes que disputam as séries A, B, C e D masculinas seriam obrigados a manter uma equipe feminina. Quem conhece a realidade do futebol masculino (em especial das séries C e D) sabe que isso seria uma loucura; quem conhece a realidade do futebol feminino sabe que isso seria impossível (não existem tantas jogadoras profissionais no Brasil).
A realidade é que a gestão do futebol feminino pela CBF é pautada pela política. Ou melhor, pela politicagem. Isso se intensificou a partir da recriação do Ministério do Esporte, que também passou a exercer a sua politicagem em parceria com a CBF. O primeiro impacto dessa dobradinha no futebol feminino foi a apresentação de candidatura para que o Brasil sedie a Copa do Mundo feminina de 2027. Nós conhecemos bem essa história e quais os reais interesses dos políticos (tanto os do governo quanto os das federações e confederações) com a organização de grandes eventos esportivos, como aconteceu no Brasil na Copa do Mundo de 2014 e nas Olimpíadas de 2016.
Hoje nós temos um Campeonato Brasileiro feminino pobre. Arrecada pouco, ainda é pouco assistido, e ainda precisa conviver com situações como a do Real Ariquemes, de Rondônia, cujas jogadoras simplesmente se recusaram a entrar em campo na última rodada em protesto pelo fato de estarem há 3 meses sem receber salário.
Hoje nós temos uma base pobre. Por falta de coordenação (ou de vontade), repetimos os mesmos erros do futebol masculino e de todos os outros esportes: só é viável fazer esporte de base no Sudeste, em especial em São Paulo. Quem mantém equipes em outros estados o faz, na esmagadora maioria das vezes, por uma questão meramente regulatória. Óbvio que ainda é melhor que haja mais equipes do que menos, mas quando isso ocorre por obrigação a conta sempre chega, e não é bonito: são recorrentes os casos de equipes que são completamente desmontadas “do nada”.