Carlos Vagetti

Ela atravessou o campo de joelhos

04 de março de 2026

Depois de um jogo aqui no Sport, uma jogadora atravessou o campo de joelhos.

O time tinha acabado de perder em casa, de virada.

Ninguém no estádio entendeu nada.

O que aquela menina estava comemorando?

Mas eu sabia exatamente o que estava acontecendo.

Eu estava com ela em Minas Gerais no ano anterior.

Na pré-temporada do Itabirito, as meninas estavam passando pelos exames cardíacos, e uma das atletas apresentou uma arritmia. Quem conduzia os exames era a Dra. Andrezza, cardiologista que trabalhava no Atlético-MG e era convocada com frequência para a seleção brasileira.

Ela foi direta: precisaríamos fazer exames complementares para confirmar o diagnóstico. Custariam cerca de cinco mil reais.

Havia uma alternativa mais simples. A atleta ainda não tinha contrato com o clube. Poderíamos simplesmente dispensá-la.

Decidimos fazer os exames.

Os resultados confirmaram o problema. Ela precisaria passar por um procedimento chamado ablação para corrigir a arritmia. Feito de forma particular, poderia custar algo perto de cinquenta mil reais. Se não fizesse o procedimento, ou se ele não funcionasse, poderia ser o fim da sua carreira.

Quando demos a notícia, ela disse que era como se tivessem tirado o chão debaixo dos pés dela. Ligamos para a mãe dela por vídeo para explicar o que estava acontecendo.

Queríamos que ela tivesse isto bem claro: ela não estava sozinha nessa.

A comissão técnica e as atletas começaram a organizar uma rifa para ajudar com os custos; conseguiram doações de camisas autografadas de diversos clubes e da seleção brasileira; atletas do Brasil todo gravaram vídeos divulgando a rifa.

Depois de dois meses de muita mobilização, a Dra. Andrezza conseguiu algo que parecia improvável: que o procedimento fosse feito pelo SUS em São Paulo. O clube custeou a passagem de ida dela pra São Paulo, onde ela ficaria na casa de um parente.

Mas a ablação infelizmente não deu certo. Voltamos à estaca zero. Ela precisaria tentar um outro procedimento, ainda mais caro, ainda mais complicado. Depois de mais dois meses de espera, ela passou por esse novo procedimento. Graças a Deus, foi um sucesso.

Meses depois, eu já estava no Sport quando recebi uma mensagem no celular. Era ela, dizendo que finalmente havia sido liberada para voltar a jogar futebol, perguntando se ainda tínhamos vaga no time. Eu não estava à frente do futebol feminino aqui, mas passei o contato dela para o executivo da área. Ele gostou do que viu e a contratou.

E naquele dia 22 de abril, oito meses depois daquele primeiro exame, ela atravessou o gramado de joelhos.

Às vezes tratamos exames médicos como uma formalidade de pré-temporada. Mas um exame bem feito pode proteger muito mais do que um contrato. Pode proteger uma carreira — e, às vezes, uma vida.

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