“Fiquei sabendo que você está com um problemão aí.”
Foi assim que um colega gerente de um clube adversário abriu a conversa comigo.
Era a segunda semana da pré-temporada do Itabirito. A essa altura, quase tudo já tinha sido resolvido, com as dificuldades naturais de quem começa um projeto do zero: local de treino fechado, uniformes entregues, elenco praticamente completo, da treinadora ao roupeiro.
Pois o problema era justamente o roupeiro.
Esse colega me contou que ele havia sido banido do futebol pelo STJD. Fui checar. Era verdade.
A notícia caiu como uma bomba.
A contratação tinha sido a mais difícil até ali. Eu não tinha ideia do quão difícil era achar esse profissional. Roupeiro é uma função invisível para quem vê de fora, mas crítica para quem opera por dentro. Horários malucos, controle de material, organização, logística. No nosso caso, com CT alugado e uniforme guardado em contêiner, o risco era ainda maior.
Eu precisava demitir alguém que havia acabado de contratar, com muito esforço, no meio da preparação. A decisão era simples, mas difícil, muito difícil. Falei com o dono e CEO do clube, e comuniquei: precisamos demiti-lo. Ele foi muito sereno ao me dizer que, se essa era a minha decisão, ele estava comigo.
Em clubes pequenos, escassez não é exceção. É regra. E é justamente nesse ambiente que a tentação de relativizar critérios aparece. “Depois a gente vê isso.” “Não é tão grave assim.” “Agora não dá pra mexer nisso.” Graças a Deus nunca foi nosso caso.
Governança e compliance não são luxos de clube rico. São proteção de projeto.
Aprendi ali duas coisas. A primeira: não existe função pequena quando o assunto é risco. A segunda: decisões difíceis ficam mais caras quando adiadas.
No futebol, como na gestão, a escassez testa convicções. E liderança, muitas vezes, é assumir o custo imediato para evitar um problema maior lá na frente.