Carlos Vagetti

“Fiquei sabendo que você está com um problemão aí”

03 de março de 2026

“Fiquei sabendo que você está com um problemão aí.”

Foi assim que um colega gerente de um clube adversário abriu a conversa comigo.

Era a segunda semana da pré-temporada do Itabirito. A essa altura, quase tudo já tinha sido resolvido, com as dificuldades naturais de quem começa um projeto do zero: local de treino fechado, uniformes entregues, elenco praticamente completo, da treinadora ao roupeiro.

Pois o problema era justamente o roupeiro.

Esse colega me contou que ele havia sido banido do futebol pelo STJD. Fui checar. Era verdade.

A notícia caiu como uma bomba.

A contratação tinha sido a mais difícil até ali. Eu não tinha ideia do quão difícil era achar esse profissional. Roupeiro é uma função invisível para quem vê de fora, mas crítica para quem opera por dentro. Horários malucos, controle de material, organização, logística. No nosso caso, com CT alugado e uniforme guardado em contêiner, o risco era ainda maior.

Eu precisava demitir alguém que havia acabado de contratar, com muito esforço, no meio da preparação. A decisão era simples, mas difícil, muito difícil. Falei com o dono e CEO do clube, e comuniquei: precisamos demiti-lo. Ele foi muito sereno ao me dizer que, se essa era a minha decisão, ele estava comigo.

Em clubes pequenos, escassez não é exceção. É regra. E é justamente nesse ambiente que a tentação de relativizar critérios aparece. “Depois a gente vê isso.” “Não é tão grave assim.” “Agora não dá pra mexer nisso.” Graças a Deus nunca foi nosso caso.

Governança e compliance não são luxos de clube rico. São proteção de projeto.

Aprendi ali duas coisas. A primeira: não existe função pequena quando o assunto é risco. A segunda: decisões difíceis ficam mais caras quando adiadas.

No futebol, como na gestão, a escassez testa convicções. E liderança, muitas vezes, é assumir o custo imediato para evitar um problema maior lá na frente.

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