Carlos Vagetti

Os 10 piores conselhos que eu recebi quando era calouro na faculdade (não é trote)

02 de abril de 2019 rascunho

Se você acabou de entrar na faculdade, várias pessoas (em especial os veteranos) vão te dar conselhos sobre o curso e sobre o que fazer no 1º ano. Cuidado: muitos desses conselhos vão acabar te prejudicando.

A ideia deste post é compartilhar alguns desses conselhos pra que você possa evitar segui-los e ter de aprender “na marra” que eles estão errados. Como eu sei que eles estão errados? Eu não só recebi como segui todos eles quando fui calouro na faculdade de Direito, e eles me prejudicaram MUITO durante toda a graduação e o começo da minha vida profissional. Eu sei que eu geralmente escrevo sobre como melhorar o aprendizado, mas o primeiro passo pra melhorar a nossa capacidade de aprender é parar de piorá-la.

Talvez alguns conselhos possam parecer específicos para o curso que eu fiz (Direito), mas por trás de cada um deles existe uma lição maior que eu acredito que se aplicam aos demais cursos. Vamos lá?

  1. “Você não precisa ver/prestar atenção nas aulas, é só estudar pelo livro do fulano”. Muitos professores costumam seguir algum “livro-texto” ao longo da matéria, e isso faz com que boa parte do que eles cobram esteja nesse livro. Mas isso não significa que eles concordam com tudo que um determinado autor diz ou pensa. No Direito, onde boa parte das informações pode ter duas ou mais teorias completamente antagônicas, conhecer só um lado é catastrófico. Onde você vai descobrir de quais partes o professor discorda? Na aula. A aula ainda é parte fundamental do aprendizado, e nenhum livro substitui assisti-la focado(a) e interessado(a). Não façam como eu, que raramente ia pra aula se o professor não fizesse chamada e, quando ia, passava boa parte do tempo jogando Pro Evolution Soccer no notebook (que me perdoem os amantes de FIFA, mas naquela época a briga era boa) achando que o tal livro-texto resolveria meu problema. Também tem o conselho contrário (e também errado), que é…
  2. “É só ver as aulas que você nem precisa estudar pra matéria do fulano”. Primeiro de tudo: praticamente todos os professores cobravam na prova mais do que ensinavam na aula, como textos de apoio e mesmo os livros-texto que eu mencionei. Além disso, muitos professores simplesmente têm uma didática péssima, e isso dificultava muito os estudos; você consegue achar alguém falando muito melhor sobre o assunto na internet (especialmente em Direito, que tem muitos professores de cursinho). E não importa quão boa seja a aula: se você só assisti-la e não fizer mais nada, vai reter menos de 10% do conteúdo. Por fim, vale lembrar: na faculdade, você não está estudando pra passar na prova, e sim pra aprender a tomar decisões quando a vida de uma ou muitas pessoas estiver nas suas mãos.
  3. “Fulano é isso/aquilo/aquilo outro” ou qualquer outra fofoca sobre a qualidade dos professores. Essas fofocas nada mais são do que isso: fofocas. Os veteranos adoram dizer que os professores são carrascos, bonzinhos, bons, maus, fiéis à esposa/ao marido, e tudo que é tipo de informação que eles ouviram em algum lugar ou que simplesmente inventaram. Geralmente, basta perguntar as notas de quem oferece esses “conselhos” pra ter uma boa ideia de quais deveriam ser descartados de cara. No fim das contas, os professores também são humanos de carne e osso, com qualidades, defeitos e em constante mudança; o professor ruim do semestre passado pode ser o melhor professor do curso neste semestre, e vice-versa.
  4. “Você vai ter de ler MUITO!” Esse deveria ser o número 1. No fim das contas, um acadêmico de Direito tem de ler tanto quanto qualquer outro universitário, e, se internalizar essa história de que tem de ler MUITO, pode acabar decidindo ler demais e se embananar com o excesso de informação. Além disso, ler é a forma de estudar em que você menos retém a informação, além de ser a mais demorada. Pra realmente aprender, não basta ler: é preciso fazer resumos/resenhas, revisar as leituras de tempos em tempos, etc. Um bom conselho é, sempre que possível, substituir um texto por um vídeo, um áudio (podcasts, audiolivros) ou mesmo pela boa e velha pergunta ao professor durante a aula. Você está não só economizando seu tempo como aumentando o seu aprendizado.
  5. “Estudar só na véspera da prova dá certo”. Isso é um péssimo conselho pra qualquer um que estiver aprendendo qualquer coisa. Hábito, consistência e repetição são muito mais eficientes do que “dar um gás” na semana da prova. Geralmente, isso termina em privação do sono (que é a hora do real aprendizado), conteúdo não aprendido e notas ruins. Estudar meia hora durante 1 mês é infinitamente melhor do que estudar 5 horas por dia durante 3 dias.
  6. “Só é campeão quem vai pra final”. Tem pessoas que entram na sala de aula pela primeira vez já querendo saber quando é a data do exame final. Ou seja, conscientemente se planejam para o fracasso: escolhem dificultar as suas vidas por 4 meses (ou por 1 ano) pra deixar tudo pra ser resolvido em uma prova no fim do processo. A propósito: você gostaria de ser operado(a) por um médico que passou por prova final em todas as matérias?
  7. “Escolha fazer a matéria com o(a) fulano(a), é mais fácil”. Sua missão na faculdade é aprender, não só passar de qualquer jeito. E, se você está conscientemente escolhendo o caminho mais fácil, geralmente significa que você não está priorizando aprender, e sim “se livrar” da matéria o mais rápido possível.
  8. “Direito empresarial/civil/penal/do trabalho é muito chato”. Bom, a afirmação pode até ser verdade. Mas… você poderia estar fazendo outro curso, em que não houvesse essas matérias chatas. Se você escolheu fazer este curso, tenha isso sempre em mente. E, quando você se formar, seu chefe/cliente/examinador na banca não vai estar nem aí se você gosta desta ou daquela matéria, e vai querer que você saiba responder às perguntas e resolver os problemas. Nunca queira passar por uma situação parecida com a que eu passei, de ter de confessar pra minha chefe que eu não tinha aprendido nada sobre direito penal na faculdade. A vida é cheia de coisas chatas, e, se você começar a faculdade já escolhendo não se dedicar a elas, você vai ter muitos problemas não só na faculdade, mas durante a vida.
  9. “Café é o melhor amigo do estudante”. Café, energético e qualquer outro estimulante são muito bons, desde que você não desenvolva uma dependência química neles. E, se você usar todos os dias e em grandes quantidades, quando chegar a hora em que você realmente precisar deles (antes de uma prova/apresentação importante), eles simplesmente não vão funcionar. Por isso, use essas substâncias com muito controle, e, de preferência, só nas horas importantes (e NUNCA durante a noite).
  10. “As matérias do começo da faculdade não servem pra nada”. No Direito, existe uma divisão muito clara entre as disciplinas do começo da faculdade (chamadas de “propedêuticas”), mais teóricas e abstratas, e as do fim da faculdade (chamadas de “dogmáticas”), mais práticas e objetivas. Muita gente me disse que “a faculdade só começa de verdade no terceiro ano”, porque as matérias do primeiro e segundo ano não serviriam pra nada. Eu usei isso como uma desculpa pra não estudar durante o primeiro e o segundo ano, e quando o terceiro chegou eu apenas mantive o padrão. Resultado: na metade do terceiro ano, eu tinha apenas uma nota acima da média, contando todas as matérias. Eu tinha simplesmente desperdiçado os dois primeiros anos de faculdade, não tinha aprendido nada, e agora estava pagando o preço. Felizmente, como todas as disciplinas eram anuais, eu tive chance de me recuperar e, fazendo 4 provas finais, passar em todas as matérias.

Hora de virar gente grande

Por último, eu quero te contar um segredinho: é MUITO fácil “trapacear” na faculdade. Colar, matar aula, passar de ano sem aprender nada, e até mesmo pagar pra alguém fazer os seus trabalhos.

Em geral, os professores são bastante permissivos com isso. Em parte (a minoria) porque não estão nem aí pros alunos. Mas a maior parte faz isso por um motivo bem simples: você não é mais criança! Se você quer pegar atalhos, os professores não vão agir como seus pais.

A responsabilidade pelo seu aprendizado é somente sua. E, no caso da faculdade, esse aprendizado é o que vai possibilitar que você consiga as melhores oportunidades no mercado de trabalho, dê uma vida boa pra você e pra sua família, contribua pra um mundo melhor, enfim, seja uma boa pessoa. Se você não assumir o protagonismo pela sua vida, vai ser pra sempre um coadjuvante na vida de alguém.

É importante ouvir os conselhos dos mais experientes, mas nunca “desligue” o seu filtro crítico, e se pergunte sempre: esse conselho vai me ajudar a ser um(a) estudante/profissional/pessoa melhor?

A culpa não é sua; a responsabilidade sim

Infelizmente, o nosso sistema de ensino é cheio de falhas, e elas costumam aparecer nos momentos mais críticos e quando não há mais tempo pra corrigir. Por isso, é importante se antecipar a esses problemas, adquirindo as ferramentas, técnicas e táticas que vão fazer diferença no seu aprendizado antes que seja tarde demais.

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