Carlos Vagetti

Um remédio para a nossa febre de bola — parte 2

17 de janeiro de 2022 rascunho

Rascunho inédito, recuperado do Drive. O texto interrompe na tragédia de Hillsborough (1989) — falta a parte final, sobre a criação da Premier League.

Recentemente eu escrevi um texto sobre o livro Febre de Bola, de Nick Hornby, que relata a vida de um torcedor de futebol na Inglaterra no período de 1968 a 1992 (o torcedor, no caso, é ele mesmo).

Ao notar as semelhanças entre os relatos de Hornby e as situações vividas por um torcedor de futebol no Brasil no período de 1995 aos dias atuais (o torcedor, no caso, sou eu mesmo), surgiu a pergunta óbvia: como o futebol inglês deixou de ser a bagunça que era e foi capaz de produzir o campeonato de futebol mais rico do mundo?

Por sorte, existe um livro contando exatamente essa história. O nome do livro é The Club: How the Premier League Became the Richest, Most Disruptive Business in Sport, de Joshua Robinson e Jonathan Clegg. Só depois eu descobri que existe uma versão do livro em português, com o título A Liga: Como a Premier League se Tornou o Negócio Mais Rico e Revolucionário do Esporte Mundial (Ed. Versal, 2020).

Bom, se você é apaixonado por futebol, talvez já saiba que a Premier League foi criada somente em 1992. Mas o embrião da sua criação vem de muito antes, o começo da década de 1980. Foi mais ou menos nessa época que os donos dos maiores clubes ingleses (os clubes sempre foram empresas por lá) se deram conta de algo que, dito hoje, parece óbvio: o futebol é um negócio como qualquer outro, sujeito às mesmas regras e princípios que uma barbearia ou um restaurante. Essa “epifania”, como costuma ser o caso, foi efeito de um momento de crise; uma recessão econômica, desemprego, protestos nas ruas, aumento na violência… Qualquer semelhança com o Brasil de hoje não é mera coincidência.

Em meio a uma situação cada vez mais caótica, dois eventos ocorridos em 1985 acabaram sendo decisivos para que os donos dos clubes dissessem “acabou a brincadeira, agora vamos levar isso a sério”. Infelizmente, duas tragédias. Um incêndio totalmente evitável, causado por uma bituca de cigarro, durante uma partida no estádio do Bradford, vitimou 56 pessoas; e dias depois torcedores do Liverpool entraram em um confronto com torcedores da Juventus durante a final da Copa dos Campeões (nome antigo da Liga dos Campeões da Europa), com 39 mortes e mais de 600 feridos.

Ao fim daquela temporada, o cenário era desolador: o principal patrocinador do campeonato inglês decidiu não renovar o contrato, e as médias de público estavam nos piores níveis do século. A qualidade do jogo era péssima, os estádios caindo aos pedaços, os hooligans dominando as arquibancadas. Foi nesse contexto que começaram a surgir três pessoas que plantariam as sementes do futuro sucesso do futebol inglês: os donos de Arsenal, Tottenham e Manchester United.

Com uma união nada saudável de loucura e conhecimento sobre negócios, os três foram pouco a pouco comprando participação em seus respectivos clubes até se tornarem majoritários. Sentados na cadeira de piloto de clubes que, apesar de grandes torcidas, vinham num processo sistemático de decadência e caminhando para o ostracismo, os três quase magneticamente se aproximaram e passaram a atrair outros “revolucionários” como os donos do Everton e do Liverpool para formar o chamado “Big Five”, o grupo dos comandantes dos cinco principais clubes ingleses.

A inspiração para o futuro era clara e vinha daquela que ainda é a maior liga esportiva do planeta: a NFL, liga de futebol americano dos Estados Unidos. A maneira como o esporte era “embalado” e vendido como um espetáculo de entretenimento, com uma atenção especial a cada detalhe, desde os telões nos estádios até a quantidade e qualidade dos banheiros. Mas o mais importante, o aspecto que realmente “pagava a festa”, era a transmissão televisiva.

Nesse aspecto, o futebol inglês dos anos 80 estava anos-luz atrás da NFL. Havia pouca ou nenhuma transmissão ao vivo das partidas, e o motivo era surreal: os clubes não queriam que as partidas fossem transmitidas. Havia uma visão predominante de que a transmissão pela TV faria com que as pessoas deixassem de frequentar os estádios, e a regra eram transmissões de partidas gravadas e de um programa chamado Goals of the Week, contendo os gols das partidas do fim de semana. Mais surreal ainda era que a opinião das emissoras de TV era de que o futebol não era um “produto adequado” para TV, pois a duração das partidas era muito longa e, por isso, não seriam capazes de manter a atenção dos telespectadores.

A administração da liga já ficava a cargo da Football League, uma entidade separada da federação nacional, a famosa Football Association, mas isso não fazia a realidade tão diferente da brasileira: a Football League era responsável por organizar as quatro primeiras divisões do futebol inglês, tendo sob o seu guarda-chuva um total de 92 clubes. Isso fazia com que em qualquer decisão, quer sobre direitos televisivos e patrocínios ou sobre a duração do intervalo do jogo, um clube de primeira e um da quarta divisão tivessem igualmente um voto. O dinheiro também era dividido entre todos, inclusive o da TV. Sim, o clube de quarta divisão recebia igual ao clube da primeira divisão pela transmissão das partidas.

Se o dinheiro era cada vez mais escasso, as desgraças se acumulavam. Em 1989, aconteceu a famosa tragédia de Hillsborough, em que um estádio em condições precárias e a ação desastrada de policiais levou à morte de quase cem torcedores do Liverpool e deixou mais de setecentos feridos.

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